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A Audiência Pública “Capitalismo e Saúde Mental: até quando vamos adoecer pelo trabalho?”, realizada na noite de segunda-feira (10), no Plenário da Câmara Municipal de Araraquara, discutiu como a lógica produtivista e a precarização das relações de trabalho têm contribuído para o aumento dos casos de esgotamento e sofrimento psíquico entre os trabalhadores.
Especialistas destacaram que o burnout é resultado de um modelo que valoriza a produtividade em detrimento do bem-estar e defenderam a necessidade de repensar a organização do trabalho e adotar práticas que promovam saúde mental e relações mais humanas nas empresas e instituições públicas.
Convocado pela vereadora Fabi Virgílio (PT), o encontro integrou a programação da Semana de Combate e Conscientização à Síndrome de Burnout e reuniu convidados para refletir sobre a relação entre o modelo produtivo atual e o aumento dos casos de adoecimento mental.
Participaram do debate o professor e pesquisador Bruno Chapadeiro e Luísa Marina, criadora do projeto Produtividade Sem Burnout – a discussão foi mediada por Marcela Reis, idealizadora do movimento (RE)Conecte-se.
Dados e desafios
Luísa apresentou dados e reflexões sobre o impacto das condições de trabalho na saúde mental dos profissionais e a responsabilidade das empresas na prevenção da síndrome de burnout.
Com base em sua experiência profissional e pessoal — incluindo um episódio de burnout em 2021 —, ela afirmou que a produtividade saudável depende de dois fatores fundamentais: clareza de objetivos e comunicação eficaz. Segundo Luísa, a ausência desses elementos afeta tanto o desempenho individual quanto o organizacional, e está diretamente relacionada ao aumento de casos de esgotamento profissional.
Ela citou levantamento publicado pela revista “Superinteressante”, segundo o qual 32% dos trabalhadores brasileiros apresentam burnout e outros 55% estão em estado de pré-burnout. Destacou ainda que o problema é “contagioso”, já que a sobrecarga e o estresse em parte das equipes tendem a se espalhar para os demais integrantes.
Defendeu ainda que o burnout é resultado de um problema sistêmico, ligado ao ambiente de trabalho e às práticas de liderança. “É majoritariamente culpa das lideranças e não do indivíduo”, afirmou.
Entre os fatores de risco mais frequentes, apontou a carga excessiva de trabalho, a falta de autonomia, a ausência de reconhecimento, o senso de injustiça e as relações tóxicas no ambiente corporativo.
Luísa também relacionou os prejuízos financeiros do esgotamento às empresas. Segundo dados trazidos por ela, o Brasil registrou R$ 3,8 bilhões em ações trabalhistas por burnout apenas entre janeiro e abril de 2025, e as perdas globais com queda de produtividade e engajamento somaram US$ 438 bilhões em 2024. “Não olhar para a saúde mental é prejuízo e, no mínimo, perda de lucro”, afirmou.
Pontuou ainda a importância da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passará a exigir das empresas o monitoramento dos riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Entretanto, apenas 5% das empresas brasileiras estão preparadas para cumprir as novas exigências.
Ao encerrar sua fala, Luísa enfatizou que a cultura de trabalho baseada em longas jornadas e alta pressão é insustentável. “Saúde mental é investimento, não gasto”, afirmou.
Modelo econômico e adoecimento
O psicólogo, professor e pesquisador em saúde mental Bruno Chapadeiro abordou as relações entre o modelo econômico vigente e o adoecimento psíquico dos trabalhadores.
Afirmou que o trabalho, embora seja uma necessidade humana para a sobrevivência, tem se transformado em um fator de sofrimento dentro da lógica capitalista. Segundo ele, o sistema neoliberal submete os indivíduos à aceleração constante, à sobrecarga e à perda de sentido no que fazem. “Enquanto houver capitalismo, estaremos adoecendo”, disse.
O pesquisador destacou que o trabalho contemporâneo tem reduzido os sujeitos a instrumentos de produção e que o lucro tem se sobreposto à dignidade humana.
Citando Karl Marx, apontou que as relações de trabalho se tornaram mercadorias e que até os sentimentos e as experiências subjetivas passaram a ser quantificados em métricas econômicas, como afastamentos e perda de produtividade.
Para exemplificar os efeitos dessa dinâmica, Chapadeiro mencionou o mito de Sísifo, no qual o personagem é condenado a empurrar diariamente uma pedra montanha acima apenas para vê-la rolar de volta. Ele associou essa imagem à sensação de repetição e esvaziamento experimentada por muitos trabalhadores.
O professor relatou que, em suas pesquisas com servidores públicos e profissionais da educação, o sentimento mais recorrente é o de alienação em relação ao próprio trabalho. Ele observou que professores, enfermeiros e outras categorias do cuidado estão entre as mais afetadas pelo burnout, devido à sobrecarga e à falta de condições adequadas.
Chapadeiro afirmou que a precarização das relações trabalhistas, a multiplicação de vínculos e a pressão por produtividade agravam o quadro de sofrimento mental. “Antes, dez pessoas faziam dez tarefas. Hoje, cinco precisam dar conta das mesmas dez”, criticou.
O pesquisador defendeu a necessidade de repensar a organização do trabalho e de criar espaços de reflexão e resistência frente ao adoecimento coletivo. Para ele, a discussão sobre saúde mental precisa ser tratada como uma questão pública e estrutural, e não apenas individual.
Encaminhamentos
De acordo com a vereadora Fabi Virgílio, o principal encaminhamento da Audiência Pública será a elaboração de Requerimento, direcionado à Prefeitura, com pedido de informações sobre o processo de adequação à NR-1.
Durante o evento, foi divulgada a informação de que a Câmara Municipal, em relação às obrigações do próprio Poder Legislativo, já está adotando medidas sobre o tema.
Reveja o debate
A Audiência foi transmitida ao vivo e pode ser revista no YouTube e no Facebook da Câmara.
Mais um evento na Casa de Leis, na quinta-feira (13), encerrará a programação da Semana de Combate e Conscientização à Síndrome de Burnout.
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